terça-feira, fevereiro 09, 2016

I - Vila

Sobre o típico mosaico da calçada
da praça que ladeia o velho palácio
há famílias e turistas no prefácio
de um dia ameno sob do sol a alçada.

Dela partem ruelas de igual populadas
entre lojas de artesãos e doçarias
e casas rústicas e cães e alegrias
nos convívios saciados nas 'splanadas.

Calcorreio sem destino nem pertença
este cenário onde divago sem crença
quando por ele passa um distante vento

que traz consigo um silêncio clamoroso
ao invés do burburinho langoroso.
Soergo a face e avisto o chamamento.

II - Serra

Os enormes montes verdes, imponentes,
visão essa que a estrada estreita galga
como do mar banhada a pele se salga
são carvalhos e salgueiros à alma rentes.

Poucas quintas e vivendas os pontilham
da ideia de civilização pequena
que até perante o esplendor alto da Pena
se perde ao se diluir em bosques que brilham.

Como o sol no horizonte vermelho fica
o ímpeto da pesquisa se intensifica
e os passos em busca do significado

mergulham entre as árvores e os penedos
sobrepondo-se aos cansaços e aos medos
num ingresso pela lua enfeitiçado.

III - Floresta

Lugar que não é lugar, sem coordenada,
cartesiano enigma encoberto por copas
que vestem lógica de pesadas roupas
tapando a solução na mente apenumbrada.

Côr que não é côr, vegetação cerrada,
sugestão de verde que em bruma desbota
tal como o aroma da flora que brota
se dissipa n'alma p'la treva aventada.

O calor da estação e o frio da geada
não contrastam distintos pois esmorece
a noção de temperatura que se esquece
como ante a noite escura a alvorada.

Ao dar-se o abandono geral dos sentidos
dá-se sábio o abandono pelas fissuras
sob o piar das corujas lá nas alturas
das certezas, das dúvidas, ou dos ruídos.

Quer razão quer emoção são engolidos
pelo denso breu que a mata em si encerra,
sem paz nem agitação, apenas serra
onde todos os estados são sorvidos.

A própria presença faz-se factos idos
na distante ausência até de estar ausente
neste momento eterno que pára a mente
e dispersa do tempo os grãos esvaídos.

Entre o estar e o existir, a fenda aberta
e o vazio que emana da sua ampla rotura
revelam-se então saída da clausura,
do que está por compreender a descoberta.

E afinal toda esta anulação que aperta
é uma soma de sítios, um vasto espaço,
o negro arvoredo o mais garrido abraço,
e o nada a maior, mais generosa oferta.

O mistério que é nosso, dele coberta,
reaviva a floresta só dando a resposta
ao deixar de do todo ser parte posta -
sendo um com ela, indivisível, se acerta.

IV - Natureza

A paisagem é de um corpo os contornos,
as elevações seus seios bem assentes,
a flora sua pele e tez resplandescentes,
e a beleza de tudo isto seus adornos.

Toda a fauna e a gente que nela habita
são seus filhos do qual ela é protectora,
que é das vidas de que ela é progenitora
que o seu coração é composto e palpita.

A neblina que a envolve é o carácter
complexo e precioso e de ser alma mater,
e as nascentes que irrigam são o querer

e o seu fluir puro os desejos sem ralo
de se entregar toda ao mar e seu embalo.
Natureza que é plena, mãe, e mulher.